FIM DA ESCALA 6X1, VITÓRIA DO BRASIL
| Ahmad Schabib Hany
Numa jogada de mestre, Lula conseguiu aprovar o fim da escala 6X1 pelo Senado Federal. Flávio, senador, não só se ausentou da sessão como levou consigo a se ausentar o grupo de senadores da coordenação de seu comitê eleitoral, entre eles o coordenador Rogério Marinho.
O dia 14 de outubro de 2026 entra para a História como a data em que, depois de pelo menos 38 anos, a jornada semanal passou a ser de 40 horas. Durante os trabalhos da Constituinte de 1987/1988, conseguiu-se a redução de 48 horas para as atuais 44, que na linguagem contemporânea é chamada de escala 6X1. Se naquela época não causou falência em série, por que agora causaria?
Além de 30 milhões de assalariados com carteira assinada ('celetistas'), são 15 milhões de trabalhadores informais em todo o Brasil os que se livram, a partir de 60 dias, dessa jornada (emenda constitucional leva esse prazo para entrar em vigor). Com a reforma trabalhista de Michel Temer, que inventou a 'liberdade' de negociação individual com o patrão e pagamento por hora trabalhada, o que ameaçou de morte a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), base dos direitos trabalhistas do país.
A despeito da enxurrada de notícias sensacionalistas da época, sob a batuta da Globo ("o Brasil será ingovernável"), por vivência própria, como titular de CNPJ de microempresa familiar durante 15 anos (a modesta hospedaria com que meus saudosos Pais deram formação profissional aos nove filhos), tive a experiência de viver a transição da jornada de 48 horas para 44 horas semanais (1989). Com diversos trabalhadores com carteira assinada, adaptamo-nos à nova legislação sem ter demitido nenhum deles.
CONQUISTA HISTÓRICA
Na histórica sessão do Senado Federal, sob a presidência de David Alcolumbre (senador do União Brasil, partido aliado dos Bolsonaro), realizada a onze dias do segundo-turno da eleição presidencial, foi uma jogada de mestre da bancada do governo. A aprovação com apenas um voto contrário revelou a fragilidade da articulação e do 'já ganhei' dos articuladores de Tariflávio Bolsomaster, que não tiveram saída que votar a favor, para não queimar seu candidato perante os milhões de trabalhadores que fazem a escala 6X1.
Mais que mera redução de quatro horas da jornada semanal de trabalho, trata-se de importante conquista de qualidade de vida e, sobretudo, saúde, ao propiciar mais um dia de descanso -- na verdade, de convívio familiar e de realização de cumprimento de deveres de responsabilidade com a família -- em uma sociedade marcada pelo agravamento dos problemas relativos à saúde mental. Apesar disso e sem quaisquer estudos consistentes, a mídia corporativa repercutiu de modo decrépito e extemporâneo à mais emblemática conquista das primeiras décadas do século XXI.
"APARECE, SEU FUJÃO!"
Como bom dirigente sindical do passado, o Presidente Lula provou ser grande artilheiro. Mas a vitória é do Brasil. Tariflávio Bolsomaster, que nunca trabalhou de fato, perdeu por W.O., isto é, abandono da trincheira, pois ele e sua 'tropa de choque' no Senado (algo como nove senadores do PL) se ausentaram, entre eles Rogério Marinho, coordenador do comitê eleitoral. Nas ruas, mais tarde, foi entoada uma consigna cobrando por sua ausência: "Flávio, ...gão: aparece, seu fujão!"
Não surpreende esse comportamento do 'Zero-Hum', pois é sua marca registrada. Só nas suas gravações ou em seus 'reels', nas redes sociais, fala grosso. Parecido ao pai, falastrão, cujo comportamento ficou conhecido ao longo de seu mandato cheio de 'gabinete do ódio', 'cercadinho', 'motociata', 'cloroquina', mas programas e ações governamentais transformadoras nada. Só é pior em suas ligações com os milicianos que tomaram conta do estado do Rio de Janeiro, a quem homenageou e empregou como assessores em seu gabinete na Assembleia Legislativa.
Graças à conduta inusual dos dois togados indicados pelo pai quando presidente, 'Zero-Hum' conseguiu fugir do debate sobre seu programa de governo (que, a bem da verdade, não tem) porque a mídia corporativa, seguindo um roteiro pusilânime, passou todo o tempo de campanha do primeiro turno repercutindo vazamentos seletivos do 'homem de Deus', enquanto o 'homem do mundo' no segundo-turno mostra que tem lado na presidência do órgão responsável pelas eleições.
FILHOS LESA-PÁTRIA E PAI LESA-HUMANIDADE?
Por outro lado, matéria reveladora do Jornalista Osvaldo Bertolino em 'O outro lado da notícia', sob o título "A corrupção internacional da campanha de Flávio Bolsonaro", mostra a complexa e abissal teia de ingerências estrangeiras para tornar presidente o irmão de Eduardo Bolsonaro. Foragido da Justiça, Eduardo está nos Estados Unidos e se exibe em reuniões com o 'imperador' Donald Trump e seu secretário de Estado Marco Rubio para impor sanções, sobretaxas e as ameaças mais bizarras a autoridades brasileiras, atentando contra a soberania e a democracia do país, sem qualquer constrangimento.
Bertolino disseca com brilhante competência o emaranhado de interesses articulados por trás da candidatura de lesa-pátria como a de Flávio Bolsonaro, em que os principais ativos brasileiros são trocados pela participação bilionária na campanha de candidato que sequer realizou simples benfeitoria à população, nem mesmo quando o pai foi presidente da República. Bolsonaro pai, aliás, está sendo processado por crimes de lesa-humanidade por prevaricações e omissões, sobretudo durante a pandemia de covid-19, quando mais de 700 mil brasileiros morreram, o dobro da taxa-média de mortalidade de países cujos governos adotaram medidas de prevenção e enfrentamento à maior crise sanitária dos últimos 100 anos.
PS: O 'Zero-Hum' não tem coordenador-geral de campanha porque simplesmente sua campanha conta com coordenação internacional, em que um complexo emaranhado de personagens diversos e dispersos, numa teia invisível, faz e desfaz o que deve ser feito.
Veja Também
NOSSA SENHORA E A ETERNIZAÇÃO DO DOUTOR ULYSSES
OS 100 ANOS DE SEU JORGE KATURCHI