VENTOS DO NORTE NÃO MOVEM MOINHOS!
| Edson Moraes
Paulinho Mendonça escreveu a letra de "Sangue Latino", João Ricardo compôs a melodia e Ney Matogrosso dançou na fantasia que em 1973 já emoldurava a realidade contemporânea. Os EUA não lograriam sequestrar o talento, a arte e a irreverente autonomia artística do "Secos & Molhados", como fizeram com os "patriotas" de fancaria.
Aquela canção de teimosia e impertinência que androginamente me pegou num domingo de sol corumbaense, no campinho da Granja, deixou minha alma cativa. Fiquei seco e molhado, de camiseta 8, no time do primo Hélio Conceição, o Avaí, enfrentando o Inocentes e empatando em 4 a 4.
Fiz o gol inicial, de falta - bola no ângulo, o goleiro Franz esticou-se todo, em vão. E eu nem craque era. Mas sabia estar seco e molhado, no palco desgramado das certezas mortas e incertezas vivas. Meu velho papi <Moraes - ai, tei-tei -> assistiu a tudo de pendura na cerca de arame liso.
Saí dos 18, cheguei aos 71, aposentado do futebol e das cobranças de falta no ângulo. Contudo, sigo teimoso, seco e molhado, ainda jurando mentiras. Não sigo sozinho e nem assumo todos os pecados, pois tenho mulher, filhos, duas cadelinhas, um gato e meia dúzia de miliárias, que um pascácio qualquer decidiu chamar de brotoejas. Não sei quanto tempo ainda tenho, mas creio que ainda me restam muitos gemidos porque de muitos vivos somos quando não morremos.
É assim, além do tempo e dos templos, que subverto as leis da paz dos cemitérios e dos repousos de fim de semana. A vida é andrógina, oras bolas! Devasso é o gênero bifásico da morte que cega e emudece. Não quebrarei a lança, dela necessitam os peles-vermelhas que escaparam da cavalaria de Custer, da horda de Trump e das milícias de Netanyahu.
Haverei de lançar-me no espaço com um verde-amarelo soberano e livre no coração e nas asas, a riscar os céus azuis com o vermelho-sangue latino de amor, poesia e liberdade. É deste espaço pau-brasil que a minha alma se fez cativa.
Livre sou! Livre serei!
Aqui não, Baby!
Aqui os ventos do norte não moverão nossos moinhos!
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