Corumbá, Terça, 28 de Julho de 2026
Gregório José

DA FEBRE DA INTERNET AO SURTO DA SEMANA

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Gregório José

Todo tempo tem sua mania. A diferença é que, antigamente, a febre precisava de alguns meses para pegar. Hoje ela nasce de manhã, viraliza à tarde e, quando chega a noite, já foi substituída por outra ainda mais barulhenta. A internet transformou a memória coletiva num grande condomínio de modismos descartáveis.

Tudo começou, para muita gente, nas comunidades do Orkut, onde se discutia de receita de bolo a teorias conspiratórias. Depois vieram os eventos do Facebook, os rolezinhos, as dancinhas coreografadas, os memes compartilhados em velocidade industrial e a certeza de que bastava um clique para transformar qualquer assunto em assunto de todo mundo.

Em 2012, o país repetia "menos a Luiza, que está no Canadá" sem que boa parte soubesse explicar a origem da frase. Quatro anos depois, multidões saíram às ruas em busca de Pokémon invisíveis. Houve quem atravessasse avenidas olhando apenas para a tela do celular, quem trombasse em postes e quem colocasse a própria segurança em risco para capturar um monstrinho que jamais pisaria no mundo real.

Vieram então os filtros milagrosos do FaceApp, capazes de envelhecer rostos em segundos e de rejuvenescer a ingenuidade de quem aceitava qualquer novidade sem perguntar o preço dos próprios dados. A brincadeira passou tão depressa quanto chegou.

Logo depois desembarcaram os desafios virais, os vídeos de poucos segundos e a fábrica de bordões. O Brasil cantou "Caneta Azul", respondeu "Receba", escapou do "Lá ele", cumprimentou com "boa, pai", chamou o "guerreiro" e descobriu que uma única palavra bastava para render milhões de visualizações.

Muito antes do TikTok, passinhos e coreografias como o Passinho do Romano e a Sarrada no Ar já mostravam que a criatividade das periferias costumava chegar primeiro, enquanto o restante do país apenas aprendia a copiar.

No caminho, também apareceram golpes embalados em linguagem de meme, como o famoso Urubu do Pix, provando que a tecnologia evolui na mesma velocidade da esperteza humana.

A impressão é que o brasileiro nunca perde a capacidade de transformar qualquer assunto em piada, dança, bordão ou negócio. Talvez seja esse nosso talento mais resistente. O problema começa quando a moda substitui o pensamento, quando o compartilhamento vale mais que a reflexão e quando a próxima tendência já nasce condenada ao esquecimento.

A pergunta não é qual será o próximo viral. É saber se, entre um meme e outro, ainda sobrará tempo para que a realidade consiga competir com a distração.

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