INVENTÁRIO DOS SILÊNCIOS
| Gregório José
O casamento deles não acabou numa terça-feira chuvosa, nem depois de uma briga cinematográfica com pratos quebrados e portas batendo. Casamentos raramente morrem assim. Isso é coisa de novela. O deles morreu aos poucos, como planta esquecida em apartamento alugado.
Primeiro morreram os apelidos.
Depois, as perguntas.
“Como foi seu dia?” virou relatório.
“Você está bem?” virou protocolo.
“Eu te amo” passou a soar como atendente encerrando ligação:
— Obrigado pela preferência.
Ela começou a dormir virada para a parede. Não por raiva. A raiva ainda exige energia. Virava-se porque o corpo humano procura automaticamente aquilo que ainda oferece calor. E ele, há meses, parecia um móvel da casa: presente, útil, silencioso e incapaz de perceber tristeza.
Ele dizia aos amigos que ela estava “estranha”.
Estranha.
Como se uma mulher não pudesse apodrecer emocionalmente diante de um homem distraído.
Ela tentou avisar de maneiras civilizadas. Mulheres quase sempre tentam de maneiras civilizadas antes da explosão. Mudou o corte de cabelo. Comprou lingerie nova. Sugeriu viagem. Chorou no banheiro sem trancar a porta, talvez esperando que ele perguntasse alguma coisa.
Mas ele estava ocupado demais sobrevivendo à própria rotina heroica. Homens cansados costumam acreditar que pagar boletos equivale a amar profundamente.
Ela não queria flores. Queria presença.
Não queria joias. Queria ser enxergada sem precisar sangrar primeiro.
Então começaram os pequenos funerais domésticos.
O jantar em silêncio.
O celular durante os beijos.
Os “hum-hum” automáticos.
A televisão falando mais que os dois.
Até que um dia ela riu de verdade olhando para outra pessoa.
Foi um susto.
Porque havia meses ela não se escutava viva.
O amante não era mais bonito. Nem mais inteligente. Tinha apenas uma qualidade devastadora: prestava atenção. E atenção, para alguém emocionalmente faminto, é droga pesada.
Ela odiou a si mesma no começo.
Depois acostumou.
Toda traição possui um momento exato em que deixa de parecer pecado e começa a parecer sobrevivência.
Enquanto isso, o marido percebia mudanças microscópicas sem entender nenhuma delas. O perfume diferente. O cuidado com a roupa. A demora no banho. Mas homens criados para ignorar emoções costumam descobrir o adultério só depois que o amor já foi enterrado há meses.
Numa madrugada, ele acordou e encontrou a esposa sentada no chão da cozinha, no escuro.
Ela chorava baixo.
Ele perguntou:
— O que aconteceu?
E talvez tenha sido essa a pá de terra final.
Porque não havia acontecido nada naquela noite.
Era justamente esse o problema.
Ela olhou para ele como quem observa um sobrevivente depois de um naufrágio antigo demais para ser explicado.
Quis dizer:
“Eu morri aqui e você não percebeu.”
Mas apenas respondeu:
— Nada.
E continuou chorando no escuro para não constranger o homem que dividia a vida com ela havia doze anos e que, ironicamente, já não fazia ideia de quem ela era.
Na semana seguinte, ele descobriu tudo.
Mensagens.
Fotos.
Hotel barato.
Mentiras.
Sentiu ódio.
Depois humilhação.
Depois uma vontade infantil de voltar no tempo e abraçar aquela mulher antes que ela virasse ruína.
Mas era tarde.
Existe um momento em que o amor deixa de pedir socorro.
E passa apenas a esperar o enterro.
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