O BRASIL QUE FINANCIA PARTIDOS E ABANDONA PRIORIDADES
Há números que escandalizam. Há números que constrangem. E há números que representam uma afronta direta ao cidadão que acorda cedo, enfrenta filas em hospitais, convive com escolas precárias, vê estradas deterioradas e paga uma das cargas tributárias mais pesadas do mundo para sustentar uma máquina política que parece não conhecer limites.
O Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o chamado Fundo Eleitoral, consumiu aproximadamente R$ 4,9 bilhões de recursos públicos para as eleições. Não se trata de dinheiro privado. Não se trata de doações voluntárias. Trata-se de dinheiro retirado do bolso do contribuinte brasileiro e redistribuído aos partidos políticos por determinação legal.
A distribuição divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral revela cifras que desafiam qualquer tentativa de justificar prioridades nacionais. O PL recebeu cerca de R$ 886 milhões. O PT ficou com aproximadamente R$ 619 milhões. O União Brasil recebeu mais de R$ 526 milhões. Juntos, apenas três partidos concentraram uma parcela gigantesca do total distribuído.
Mas o problema não termina nos grandes partidos.
O verdadeiro escândalo mora nos detalhes.
Enquanto legendas com representação expressiva no Congresso recebem centenas de milhões, partidos sem relevância política nacional, sem presença significativa nas assembleias legislativas, sem influência concreta nos municípios e, em alguns casos, sem sequer possuir estrutura minimamente compatível com os recursos recebidos, também são contemplados com milhões de reais.
Milhões.
Dinheiro suficiente para equipar unidades de saúde.
Dinheiro suficiente para ampliar programas de atendimento a pessoas com deficiência.
Dinheiro suficiente para custear medicamentos de alto custo.
Dinheiro suficiente para salvar vidas.
Em vez disso, o recurso segue para estruturas partidárias que frequentemente sobrevivem muito mais graças aos cofres públicos do que ao apoio espontâneo da sociedade.
O cidadão comum é obrigado a financiar siglas que jamais conhecerá, cujos dirigentes jamais verá e cujas propostas jamais influenciarão a realidade de sua cidade.
O resultado é perverso.
Criou-se um ambiente em que determinados partidos não precisam conquistar relevância social para existir. Não precisam convencer eleitores em número suficiente. Não precisam construir bases sólidas. Não precisam arrecadar apoio genuíno.
Basta permanecer dentro das regras do sistema.
O dinheiro chega.
E continua chegando.
A lógica democrática deveria funcionar na direção oposta. Partidos deveriam sobreviver pela capacidade de mobilizar cidadãos, filiados, simpatizantes e doadores legítimos dentro dos limites da lei.
No Brasil, em muitos casos, a ordem dos fatores foi invertida.
Primeiro vem o dinheiro público.
Depois, se houver tempo, busca-se representatividade.
É difícil explicar para uma mãe que aguarda meses por uma consulta especializada que bilhões de reais foram reservados para propaganda eleitoral.
É difícil explicar para famílias que dependem de hospitais superlotados que a prioridade orçamentária incluiu o financiamento de campanhas.
É difícil explicar para municípios sem saneamento básico que recursos bilionários foram direcionados para impulsionar candidaturas.
O contribuinte paga a conta.
Sempre.
Sem opção de escolha.
Sem possibilidade de recusa.
Sem direito de direcionar um único centavo.
E isso deveria provocar indignação nacional.
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