ENTRE O PASSADO GLORIOSO E O PRESENTE TÍMIDO
Começou o Campeonato da Liga de Esportes de Corumbá. Outrora, a competição mais importante da cidade, hoje inicia de forma discreta, sem o brilho que já marcou gerações.
O futebol amador corumbaense ainda resiste, mas já não pulsa como antes.
O atual sistema de disputa, mais curto e com características eliminatórias, até traz um certo equilíbrio imediato, mas, na prática, reduz as possibilidades ao longo da competição. Diferente dos antigos formatos de turno e returno, onde havia tempo para recuperação e afirmação das equipes, hoje quem começa bem já se posiciona de forma confortável. É uma lógica de tiro curto, quase uma “Copa do Mundo” local mas que pouco contribui para o fortalecimento do futebol amador ou para a formação de atletas com projeção maior.
E esse talvez seja o ponto mais sensível: o campeonato deixou de ser vitrine.
A expectativa, agora, repousa na resolução do imbróglio eleitoral da Liga. A ausência de definição administrativa há tanto tempo cobra seu preço dentro e fora de campo. Um novo comando pode, e deve, representar mais do que mudança de nomes: precisa significar mudança de rumo.
Porque o reflexo já é visível.
O Estádio Arthur Marinho, que já foi palco de grandes multidões, hoje recebe público tímido. Mesmo com equipes que investem, que tentam montar elencos competitivos, o retorno não é garantido. O futebol, como sempre, não se rende ao papel. Estrelas nem sempre brilham, projetos nem sempre se confirmam, e no fim, vence quem erra menos.
Mas há algo que o tempo não apaga: a memória.
Quem viu, viu.
Brandão Júnior e Santa Fé, na década de 70, decisão nos pênaltis e estádio tomado por uma multidão. Enira e Cordolina, nos anos 90, outro capítulo de arquibancadas cheias e emoção à flor da pele. Eram tempos em que o futebol amador não era apenas competição, era evento, era identidade, era pertencimento.
Hoje, ir ao estádio exige esforço. Antes, era inevitável.
A Liga de Esportes de Corumbá carrega uma história que não pode ser reduzida a um período de estagnação administrativa que já dura mais de uma década. O que está em jogo não é apenas um campeonato, é um patrimônio esportivo da cidade.
Que o futebol reencontre seu caminho.
E que, quem sabe, os deuses do futebol voltem a fazer morada no velho e respeitado Arthur Marinho.
Quando o esporte encolhe, a base sente
Dois anos sem os Jogos Escolares.
Só isso já seria suficiente para acender um alerta. Mas o cenário consegue ser ainda mais preocupante.
O que temos hoje é uma seletiva, enxuta, apressada e limitada, para definir os representantes de Corumbá nos Jogos Escolares de Mato Grosso do Sul. Uma solução prática? Talvez. Mas, definitivamente, não é a ideal para quem entende o esporte como ferramenta de inclusão e formação.
Encurtar uma competição que, por natureza, deveria ser ampla e participativa, é reduzir oportunidades. É fechar portas para talentos que precisam justamente do volume de jogos, da vivência competitiva e do ambiente coletivo para se desenvolver.
E o reflexo já aparece dentro de quadra.
O nível técnico é baixo, as equipes estão desfiguradas e a base esportiva de Corumbá não se renovou como deveria. Falta ritmo, falta entrosamento, falta continuidade. Não se constrói desempenho apenas com seletivas, isso é consequência de um trabalho que precisa ser permanente.
Enquanto isso, Campo Grande retoma sua supremacia.
E não por acaso. Na Capital, o incentivo é maior, as oportunidades são mais amplas e o número de atletas praticando esportes coletivos cresce de forma consistente. Quanto mais opções, maior a concorrência interna, e, consequentemente, maior o nível técnico. É um ciclo virtuoso que fortalece quem investe.
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