Corumbá, Quarta, 03 de Junho de 2026
Reginaldo Coutinho

O FIM DE UM SÍMBOLO: RIACHUELO FUTEBOL CLUBE SERÁ DEMOLIDO EM CORUMBÁ

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Reginaldo Coutinho

Fundado há 111 anos, em fevereiro de 1915, o tradicional Riachuelo Futebol Clube chega ao seu capítulo final. O clube, que marcou gerações em Corumbá, será completamente demolido para dar lugar a uma estrutura operacional da Sanesul.

No local, será implantada uma estação de tratamento de lodo, oriunda do processo de tratamento da água captada do Rio Paraguai, responsável pelo abastecimento da cidade.

A decisão foi oficializada em publicação no Diário Oficial do Estado, onde a empresa informa que, no próximo dia 7 de julho, abrirá as propostas financeiras das empresas interessadas na execução da demolição e retirada dos escombros.  O valor da licitação segue sob sigilo.

De acordo com o Termo de Referência, a demolição será total, com cuidados técnicos voltados à preservação das estruturas vizinhas, evitando danos às edificações próximas.

O que chama atenção é a mudança de discurso. Inicialmente, falava-se na preservação de parte do clube e na criação de um memorial em homenagem à sua história. No entanto, o novo documento é claro: toda a estrutura será removida piscina, salão de festas, ginásio esportivo e áreas administrativas.

Abandonado há cerca de 15 anos e já bastante deteriorado, o clube ocupa uma área estratégica ao lado da estação de tratamento de água, que processa, em média, 1,8 milhão de litros por hora.

Mas reduzir o Riachuelo a um espaço físico seria um erro.

O clube foi protagonista no esporte local, com forte presença no Campeonato Amador da Liga de Esportes de Corumbá, além de ter disputado a primeira divisão do Campeonato Sul-Mato-Grossense de Futebol nos anos de 2000 e 2001.

Importante destacar: a participação no futebol profissional não deixou dívidas para o clube. A crise que levou à sua bancarrota teve outra origem, ações trabalhistas movidas por poucos funcionários. Em uma audiência de conciliação decisiva, um ex-presidente, já falecido, deixou de comparecer. A partir daí, a situação saiu do controle, transformando-se em uma bola de neve jurídica e financeira.

O imóvel acabou sendo levado a leilão e arrematado pela própria Sanesul.

E aqui surge um ponto que permanece sem resposta: qual foi o destino do valor arrecadado?

Trata-se de uma área central, valorizada, que dificilmente teria sido negociada por um valor irrisório. Ainda assim, pouco ou nada se comenta sobre a destinação desses recursos. Cabe, inclusive, aos autores das ações trabalhistas buscarem esclarecimentos, já que o débito foi reconhecido pela própria Justiça.

Outro ponto pouco discutido envolve a existência de uma adutora que passa embaixo do ginásio do clube. Não há informação pública sobre qualquer tipo de compensação financeira pelo uso do solo ao longo de décadas , uma questão que também merece esclarecimento.

O fim do Riachuelo não é apenas o desaparecimento de uma estrutura. É o encerramento de um ciclo social, esportivo e cultural.

Ficam as lembranças dos bailes de carnaval, dos festivais estudantis da canção, das competições esportivas, do parque aquático, conquistas importantes para os associados e para a comunidade.

Era mais do que um clube. Era parte da identidade local.

Seu desaparecimento ocorre de forma melancólica, deixando lacunas não apenas na memória afetiva da cidade, mas também em questionamentos que ainda carecem de esclarecimentos.

Resta agora a expectativa de que, ao menos, a área que ocupará seu espaço cumpra com excelência sua função pública. Que o serviço de água e esgoto prestado à população esteja à altura da história que ali existiu.

Porque o Riachuelo Futebol Clube, em sua essência, sempre representou qualidade, tradição e pertencimento.

Valores que não deveriam ser demolidos junto com suas paredes.

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