Fim das bets tira menos de 6% da receita dos grandes clubes e não ameaça futebol brasileiro
Levantamento com 16 clubes mostra que casas de apostas pagaram ao menos R$ 784 milhões em 2025, diante de uma receita de R$ 13,5 bilhões; no mesmo período de expansão desses patrocínios, dívida dos clubes chegou a R$ 14,8 bilhões.
A proibição das bets no Brasil vai retirar dos clubes uma importante fonte de patrocínio, mas os números mostram que essa receita está longe de ser indispensável para a sustentabilidade financeira do futebol brasileiro. Em 2025, as casas de apostas pagaram pelo menos R$ 784 milhões a 16 dos principais clubes do país. O valor corresponde a 5,8% da receita conjunta dessas equipes, que chegou a R$ 13,5 bilhões.
Os dados fazem parte de levantamento do Instituto de Pesquisa Inteligência Esportiva da Universidade Federal do Paraná (IPIE/UFPR), realizado a partir das demonstrações financeiras dos clubes entre 2019 e 2025.
O estudo ganha relevância após a edição da Medida Provisória 1.394/2026, que proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no país. A MP entrou em vigor em 25 de setembro e ainda será apreciada pelo Congresso Nacional.
Os números indicam que, apesar da grande exposição das marcas de apostas nas camisas e transmissões esportivas, o peso delas nas contas dos clubes é significativamente menor do que sua presença visual pode sugerir.
Em 2025, direitos de TV e premiações representaram 31% da receita dos clubes analisados, e a venda de atletas, 29%. Patrocínio e publicidade, incluindo as bets e empresas de outros setores, responderam por 17%. As casas de apostas, isoladamente, ficaram em 5,8%.
A dependência também varia entre os clubes. Entre aqueles com contratos conhecidos, a maior participação encontrada foi no Fortaleza, em que as bets representaram 11,5% da receita de 2025. No Corinthians, foram 10,6%; no Palmeiras, 7,5%; e no Flamengo, 5,2%.
Receita cresceu, mas dívida também
Entre 2022 e 2025, período em que os contratos com casas de apostas ganharam maior relevância, a receita dos clubes cresceu 106%, enquanto as despesas operacionais avançaram 103%. Em 2025, dez dos 16 clubes analisados gastaram mais do que arrecadaram.
A dívida conjunta passou de R$ 9,6 bilhões em 2022 para R$ 14,8 bilhões em 2025, crescimento nominal de 54%. Descontada a inflação, a alta foi de 34%. Dos 13 clubes para os quais foi possível identificar o valor do patrocínio das bets, 12 terminaram 2025 com dívida superior à registrada em 2022.
Os dados não estabelecem uma relação de causa entre a entrada das bets e o aumento do endividamento. Mostram, porém, que o crescimento dessa fonte de patrocínio não produziu efeito visível de redução das dívidas.
Outro dado ajuda a dimensionar o impacto. Entre 2022 e 2025, as bets responderam por cerca de 12% do crescimento real da receita dos clubes. Vendas de atletas, direitos de TV e premiações, juntas, responderam por, aproximadamente, 60%.
“Esse é um tema que precisa ser enfrentado imediatamente. Os dados estão mostrando o grande problema de endividamento das pessoas, mas não é só isso: o debate precisa ser ampliado no aspecto da saúde pública, na gestão sustentável dos clubes de futebol, no jogo responsável e na prevenção aos transtornos de jogo patológico causados pelas bets. Por isso, entendemos que o futebol não vai acabar e que a medida foi necessária”, afirma Fernando Mezzadri, coordenador-geral do IPIE.
Futebol tem outras fontes de receita
O levantamento também indica que o crescimento recente das receitas não ficou concentrado nas apostas. Entre 2022 e 2025, as bets acrescentaram cerca de R$ 730 milhões às receitas dos clubes, enquanto os demais patrocinadores cresceram, aproximadamente, R$ 714 milhões.
Para os pesquisadores, os números indicam que a discussão sobre a sustentabilidade financeira dos clubes passa, principalmente, pelo equilíbrio entre receitas e despesas, pela diversificação dos patrocinadores e pelo controle do endividamento.
O levantamento acompanha Athletico-PR, Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Ceará, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo, Fluminense, Fortaleza, Grêmio, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco da Gama. As informações foram obtidas nas demonstrações financeiras e notas explicativas dos clubes. Os dados de dívida têm como referência os estudos anuais da Sports Value.
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