Corumbá, Terça, 04 de Agosto de 2026
Meio Ambiente

Instituições do Brasil e Bolívia articulam cooperação transfronteiriça contra incêndios florestais

O encontro binacional debateu formas de atuação conjunta e complementar que abrangem os territórios de Corumbá e Ladário, do lado brasileiro, e Puerto Quijarro, Puerto Suárez, no lado boliviano.

Fotos: divulgação/IHP

Com o objetivo de fortalecer a cooperação transfronteiriça e integrar ações de prevenção, monitoramento e resposta a emergências na região de fronteira, representantes de instituições locais do Brasil e da Bolívia reuniram-se no Instituto Homem Pantaneiro (IHP), em Corumbá (MS). O encontro binacional debateu formas de atuação conjunta e complementar que abrangem os territórios de Corumbá e Ladário, do lado brasileiro, e Puerto Quijarro, Puerto Suárez, no lado boliviano.

O encontro reuniu a Subgovernación da Província German Busch, que compreende as regiões de Puerto Quijarro, Puerto Suárez e Carmen Rivero Torres e está vinculada ao Gobierno Autonomo Departamental de Santa Cruz, Armada Boliviana com o 5º Distrito Naval, Prevfogo/Ibama, Marinha do Brasil com o 6º Comando do Distrito Naval, Corpo de Bombeiros de Mato Grosso do Sul com o 3º Grupamento, Polícia Militar Ambiental (PMA), Fundação de Meio Ambiente do Pantanal (Prefeitura de Corumbá), Superintendência Municipal de Proteção e Defesa Civil (Prefeitura de Corumbá) e o Instituto Homem Pantaneiro (IHP). Esse primeiro encontro foi no 28 de julho e a partir dessa reunião houve definição para que haja maior interlocução entre esses atores.

A reunião marcou um importante avanço no alinhamento de estratégias para o manejo integral do fogo e a proteção da biodiversidade no Pantanal e Chaco boliviano. Durante a jornada de trabalho, os participantes compartilharam experiências operacionais, debateram possibilidades de ações conjuntas, desafios que envolvem temas binacionais, formas de engajamento em atividades complementares e um canal aberto para compartilhamento de informações de monitoramento com foco em detecção precoce de focos de calor e acompanhamento da biodiversidade.

O uso do Sistema Pantera, mantido pelo IHP para monitorar em tempo real focos de fumaça na região da Serra do Amolar, área fronteiriça com a Bolívia, foi apresentado para as autoridades bolivianas. Além disso, houve apresentação da metodologia de geração de informes sobre alertas. A plataforma de monitoramento conta com torres equipadas com câmeras de alta resolução e cobertura de 360 graus, cobrindo uma área de mais de 1 milhão de hectares em Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bolívia.

Para o subgovernador da Província Germán Busch (no Governo Autônomo Departamental de Santa Cruz), Luis Delgadillo Salazar, a união de esforços entre os dois países é fundamental para garantir a segurança das populações e a conservação do ecossistema compartilhado.

“A gestão de incêndios florestais e a proteção ambiental não reconhecem limites geográficos. Este primeiro encontro binacional reafirma o compromisso da nossa província em trabalhar lado a lado com as instituições brasileiras. Ao unirmos tecnologia, planejamento e capacidade operativa, fortalecemos nossa capacidade de resposta para proteger nossa biodiversidade e a saúda da população de fronteira. O resultado dessse encontro representa avançarmos em uma agenda permanente de cooperação. O intuito é termos novas reuniões, nas próximas semanas, para buscar consolidar protocolos de forma institucional e oficial, assim fortalecer a coordenação entre os organismos responsáveis pela proteção ambiental na região fronteiriça”, destacou o subgovernador Luis Delgadillo Salazar.

O presidente do IHP, Ângelo Rabelo, pontuou que as ações conjuntas potencializam os esforços de prevenção. “No Brasil, temos um trabalho coordenado que envolve a importante atuação do Prevfogo/Ibama, dos Bombeiros de Mato Grosso do Sul, a Marinha do Brasil é uma parceira estratégica na logística e em outros apoios, da mesma forma que isso já ocorre com a Prefeitura de Corumbá, por meio de órgãos como a Defesa Civil e a Fundação de Meio Ambiente, e a PMA. Na Bolívia, a Armada Boliviana tem ficado a frente de várias ações no combate ao fogo e treinamento de pessoal. Estar alinhado também com a Província German Busch representa em um avanço para termos esforços ampliados para proteger o Pantanal.”

Agenda permanente e próximos passos

Como resultado do encontro, os órgãos e entidades participantes acordaram na criação de uma agenda permanente de trabalho transfronteiriço. Nessa primeira reunião, o intuito foi aproximar atores que estão engajados na prevenção e combate aos incêndios.

O próximo passo é haver uma articulação interinstitucional para que sejam encaminhados protocolos de atuação que possam melhorar o tempo de resposta e seja efetivado a troca de informações em tempo real sobre riscos de incidentes ambientais que possam ameaçar um dos dois países ou que acabe atingindo Bolívia e Brasil.

Essas ações também devem encontrar respaldo com medidas que estão sendo debatidas em nível federal entre os dois países, que, neste caso, vai abranger também regiões fronteiriças que envolvem outros estados brasileiro e boliviano.

Intercâmbio em andamento

A Armada Boliviana já vem promovendo um intercâmbio técnico e cultural com o Instituto Homem Pantaneiro (IHP), além do Prevfogo/Ibama e Corpo de Bombeiros. Nos últimos três meses, mais de 60 oficiais e sargentos da instituição da Bolívia participaram de capacitação no escritório do IHP. As equipes da Armada Boliviana também apresentaram técnicas de combate e equipamentos que foram montados em Puerto Quijarro para serem utilizados em caso de incidentes com o fogo.

“Temos o comprometimento de atuar na proteção da natureza e na segurança das pessoas. Há uma importância fundamental nessa troca de conhecimento e aperfeiçoamento dos militares da Armada Boliviana. Podermos ter alinhamento para somar forças é essencial e o fogo não conhece fronteiras”, defendeu o comandante do 5º Distrito Naval em Puerto Quijarro, Cap. Nav. DAEN. Cadmiel Mounzon Teran.

Alerta para o segundo semestre

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) publicou nota técnica com as previsões mais recentes sobre o desenvolvimento do fenômeno El Niño para o segundo semestre de 2026. Os maiores riscos estão previstos para o trimestre agosto-setembro-outubro, com intensidade estimada entre moderada e forte.

A área central do país deverá registrar ondas de calor mais frequentes e baixa umidade, o que gera impacto direto para o Pantanal e aumenta os riscos para incêndios florestais.

Essa possibilidade de ondas de calor está prevista para fenômenos que podem superar ao que ocorreu em 2023 e 2024, quando eventos combinados de calor e seca intensificaram o número de incêndios de vegetação na Amazônia e no Pantanal. Os incêndios florestais geram riscos para a biodiversidade e causam sérios problemas para a saúde de pessoas que vivem no território, principalmente em áreas remotas, onde não existe os mesmos recursos para abrigo contra a fumaça como ocorre nas zonas urbanas. Além disso, essas comunidades ficam mais próximas dos episódios onde há as chamas.

Na Bolívia, os registros de focos de calor têm sido mais intensos que no Brasil nos últimos sete dias, conforme dados do sistema Firms. As regiões mais graves ficam nas fronteiras com Mato Grosso e Rondônia. Uma área de mais de 5 milhões de hectares já foi afetada pelos focos de calor na Bolívia, a distâncias de até 200 km da faixa de fronteira com o Brasil.

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