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Corumbá, Quarta, 04 de Novembro de 2026
Política

A VERDADE SOBRE AS BETS E O FUTEBOL

É preciso colocar essa discussão de uma forma honesta: o fim das bets não significa o fim do financiamento do futebol brasileiro.

O futebol brasileiro possui diversas fontes de financiamento. As Loterias Federais, administradas pela CAIXA, destinam recursos para áreas como o esporte, além de outras políticas públicas.

A própria Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597/2023) estabelece mecanismos de financiamento e fomento ao esporte e prevê a utilização de recursos provenientes de concursos de prognósticos, sorteios e loterias pelas organizações esportivas.

Além disso, o futebol conta com receitas próprias dos clubes, direitos de transmissão, venda de ingressos, programas de sócio-torcedor, publicidade, patrocínios e investimentos privados. A CAIXA, por exemplo, mantém política de patrocínio esportivo.

Portanto, dizer que, sem as bets, “o futebol brasileiro vai acabar” ou “ficará sem financiamento” não é verdade.

O futebol brasileiro é muito maior do que as bets.

Há uma mudança legislativa muito recente: a Lei nº 15.523, de 28 de setembro de 2026, alterou a legislação das loterias e destinou novo percentual ao Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), reforçando que existem mecanismos de financiamento esportivo fora das bets.

E há uma demonstração concreta disso: somente a Copa do Brasil de 2026 distribuirá cerca de R$ 500 milhões em premiações aos clubes participantes, segundo a CBF.

A seleção brasileira de futebol masculina contou e conta com os seguintes patrocinadores: Nike, Ambev, Itau, Vivo, Cimed, iFood, Volkswagen, Uber, Sadia, Google, Azul e Amazon.

Destacamos também a existência da Lei de Incentivo ao esporte, que permite o repasse para os clubes recursos do Imposto de Renda de pessoas físicas e jurídicas.

Portanto, é preciso separar as coisas. As bets se tornaram uma fonte importante de patrocínio para vários clubes, mas isso não significa que sejam a única fonte de financiamento do futebol brasileiro.

E há um argumento histórico que não pode ser ignorado: o futebol brasileiro não nasceu com as bets — e muito menos depende delas para existir.

Antes da expansão das casas de apostas no Brasil, nossos clubes já conquistavam os maiores títulos do futebol mundial.

O Brasil tem uma longa história de campeões da CONMEBOL Libertadores. Flamengo, Grêmio, Palmeiras, Santos e São Paulo são tricampeões; Cruzeiro e Internacional têm dois títulos; e outros clubes brasileiros também chegaram à conquista continental. A FIFA registra, inclusive, 11 clubes brasileiros campeões da Libertadores até 2023.

E essa história continuou recentemente. O Botafogo conquistou a Libertadores em 2024, seu primeiro título na competição.  Em 2025, o Flamengo conquistou novamente a Libertadores, chegando ao seu quarto título.

Na Copa Sul-Americana, clubes brasileiros também construíram uma história importante, com conquistas de Internacional, São Paulo, Athletico-PR, Chapecoense e outros.

E no cenário mundial, clubes brasileiros também fizeram história: Santos, Flamengo, Grêmio, São Paulo, Internacional e Corinthians já conquistaram títulos mundiais.

Portanto, é preciso tomar cuidado com o discurso de que, sem as bets, “o futebol acaba”.

O governo federal não tomou a decisão de proibir as bets para prejudicar o futebol. A decisão foi tomada diante dos graves problemas sociais e de saúde pública associados às apostas, que estão atingindo milhares de pessoas e suas famílias.

O Ministério da Saúde destacou que o transtorno relacionado às apostas pode estar associado a ansiedade, depressão, perda de controle, conflitos familiares, isolamento e prejuízos nas relações pessoais e profissionais.

Os números mostram a dimensão do problema: até agosto deste ano, mais de 1,2 milhão de pessoas haviam pedido autoexclusão das plataformas de apostas, sendo que a principal justificativa foi a perda de controle sobre o jogo e problemas de saúde mental. Cerca de 3 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do BPC também foram impedidos de apostar.

Dados divulgados pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), após a proibição, mostram o impacto direto dessa medida no orçamento das famílias:

As vendas do varejo registraram uma alta de 6,5% na primeira semana de outubro e mantiveram o ritmo com 6,3% de aumento na semana seguinte, em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Os alimentos com maior destaque em vendas foram arroz, óleo, macarrão e café.

Se uma fonte de receita provoca problemas tão graves de saúde pública que o Estado precisa criar mecanismos de proteção, fiscalização, autoexclusão e atendimento pelo SUS, é legítima a decisão de proibir para interromper os efeitos nocivos a sociedade.

A proteção das famílias e da saúde das pessoas deve estar acima dos interesses econômicos das empresas de apostas.

O caminho é garantir um financiamento esportivo diversificado, permanente, transparente e responsável, fortalecendo não apenas o futebol, mas também o vôlei, basquete, atletismo, natação, esportes paralímpicos, esporte escolar, universitário e todas as demais modalidades.

Um dado particularmente importante, é que o próprio governo já está oferecendo até 100 mil teleatendimentos mensais pelo SUS para pessoas com problemas de saúdEx e mental relacionados a apostas e também para seus familiares.

Isso ajuda a demonstrar que a questão não é apenas econômica: há uma preocupação concreta de saúde pública e proteção das famílias.

Prof Raul Delgado / Ex gestor de Esporte e Lazer

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