CNBB invoca Nossa Senhora Aparecida e prega “Brasil soberano” no dia do 1º turno da eleição
Mensagem publicada pela Conferência neste domingo ocorre após embate com Flávio Bolsonaro sobre o caso envolvendo a retirada de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou neste domingo (4), dia do primeiro turno das eleições, uma mensagem em que invoca a proteção de Nossa Senhora Aparecida e pede um Brasil “reconciliado, soberano, justo e fraterno”.
“Confiamos nossa Pátria à proteção de Nossa Senhora Aparecida. Que Deus nos conceda sabedoria e coragem para construirmos juntos um Brasil reconciliado, soberano, justo e fraterno”, diz a publicação, acompanhada da hashtag #Eleições2026.
A CNBB não cita candidatos. A mensagem, porém, ganha peso político pela conjuntura: ocorre poucos dias depois de um embate direto da entidade com Flávio Bolsonaro (PL) e após Nossa Senhora Aparecida ter sido colocada no centro da reta final da campanha. A pauta da soberania, por sua vez, é uma das principais bandeiras da campanha à reeleição do presidente Luiz Inacio Lula da Silva (PT).
A polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida
Nas últimas semanas, circulou, a partir de apuração jornalística, a informação de que setores da igreja católica estariam preocupados com o crescimento de um movimento dentro da igreja evangélica e entre fileiras do bolsonarismo para retirar o posto de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida — e que este projeto teria apoio de Flávio Bolsonaro. O candidato negou a intenção.
O tema, entretanto, tem antecedentes concretos entre aliados políticos e religiosos do bolsonarismo.
Em 2007, o então deputado Professor Victório Galli apresentou projeto para substituir na legislação a denominação “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta foi arquivada. Galli posteriormente foi assessor especial da Presidência durante o governo Jair Bolsonaro.
Há ainda uma ligação mais direta com o atual candidato. Como mostrou a Fórum, Flávio e sua mulher, Fernanda Bolsonaro, foram batizados em 2024 na Comunidade das Nações, fundada pelo bispo JB Carvalho, liderança religiosa próxima à família Bolsonaro.
Em seu livro A Bomba – A verdade pode ser explosiva, de 2001, Carvalho defendeu uma mobilização para mudar a condição de Aparecida e escreveu: “Que Aparecida não seja mais Senhora em nossa nação”, ao mesmo tempo em que pregava o reconhecimento de Jesus Cristo como “único Senhor no Brasil”.
Durante a campanha, Flávio afirmou que um de seus primeiros atos, caso eleito, seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Depois da repercussão, sua campanha disse que a declaração tinha caráter religioso e simbólico, sem efeito jurídico.
Embate com a CNBB
A controvérsia levou Flávio a atacar diretamente a CNBB. No último dia 27, o candidato afirmou, sem apresentar provas, que haveria “gente de dentro da CNBB” ajudando o PT a espalhar a informação falsa de que ele pretendia retirar o título de Padroeira do Brasil.
A entidade reagiu no mesmo dia. Em nota, afirmou que “não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao atual processo eleitoral”.
A Conferência ainda rebateu o candidato: “Atribuir à CNBB participação em estruturas de produção ou disseminação de desinformação, sem fatos e provas que sustentem tal afirmação, atinge injustamente a instituição”. E concluiu: “A mentira não se combate com outra mentira.”
No dia seguinte, Flávio mudou o tom, apareceu em ato de campanha segurando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e agradeceu à própria CNBB, afirmando que a entidade teria confirmado que a acusação contra ele era falsa.
“Soberano”
A frase publicada neste domingo já havia aparecido em uma mensagem da presidência da CNBB no 7 de Setembro, quando a entidade defendeu um Brasil “livre e soberano, democrático, justo e fraterno” e alertou contra a “instrumentalização da fé” no processo eleitoral.
Em documentos anteriores sobre as eleições, a CNBB também ressaltou que não apoia candidatos nem partidos, mas orientou os fiéis a considerar a defesa da democracia, da justiça e do bem comum.
No dia em que o país vai às urnas, portanto, a Conferência voltou ao debate público escolhendo dois símbolos carregados de significado nesta eleição: Nossa Senhora Aparecida, envolvida diretamente na crise da reta final da campanha, e a defesa de um “Brasil soberano”.
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