Corumbá, Quarta, 05 de Agosto de 2026
Política

Única indígena lembrada em pesquisa espontânea, Gleycielli Guató quer levar representatividade indígena para Câmara Federal

Nascida em Coxim, Gleycielli pertence ao povo Guató, uma das etnias originárias historicamente ligadas ao Pantanal.

Foto: Eduardo Marques/Divulgação

Uma trajetória construída na literatura, no cinema, na educação e na defesa da cultura dos povos originários fez com que o nome de Gleycielli Nonato Guató passasse a integrar, antes mesmo do início oficial da campanha eleitoral, a lista de lembranças espontâneas dos eleitores de Mato Grosso do Sul. 

A artista, escritora e liderança indígena do povo Guató foi a única representante indígena citada na pesquisa espontânea de intenção de voto para deputada federal realizada pela Ranking Comunicação e Pesquisas entre os dias 18 e 23 de julho, que ouviu 2.000 moradores com 16 anos ou mais em 30 municípios do estado. A amostragem conta com um intervalo de confiança de 95% e margem de erro de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

Em um estado que concentra a terceira maior população indígena do Brasil, o levantamento chama atenção para o crescimento da representatividade dos povos originários no debate público e evidencia uma trajetória construída muito antes da disputa eleitoral.

Nascida em Coxim, Gleycielli pertence ao povo Guató, uma das etnias originárias historicamente ligadas ao Pantanal. Licenciada em Artes e pós-graduada em Literatura, Cultura e Artes Cênicas, iniciou sua carreira como professora e, ao longo de quase duas décadas, transformou a arte em instrumento de fortalecimento da identidade indígena e de promoção da cultura sul-mato-grossense. É escritora, atriz, cineasta, produtora cultural, radialista, apresentadora de televisão e articuladora de projetos voltados à literatura, ao audiovisual e à formação cultural.

Autora de obras como Índia do Rio, Vila Pequena, A Revolução de Catí Guató e Corixos dos Bichos — livro adquirido pelo Ministério da Educação para distribuição em escolas públicas de todo o país —, Gleycielli também construiu uma trajetória no audiovisual, participando como atriz, roteirista, produtora e produtora executiva de filmes e documentários voltados à preservação da memória e da cultura dos povos originários.

Ao receber a notícia de que seu nome havia sido lembrado espontaneamente pelos entrevistados, Gleycielli conta que a informação chegou como uma surpresa, mas também como a confirmação de que a caminhada construída ao longo dos anos começa a ser reconhecida pela população.

"Foi uma surpresa muito positiva. A gente acredita no trabalho que está sendo construído e na força dessa caminhada coletiva, mas ver meu nome lembrado espontaneamente mostrou que essa história começou a alcançar as pessoas. Para mim, significa que estamos levando muitas vozes para perto dos espaços onde as decisões são tomadas".

Para ela, a lembrança espontânea vai muito além do reconhecimento individual. "Quando uma pessoa indígena chega, ela não chega sozinha. Chegam junto o nosso povo, a nossa comunidade, a nossa cidade e os povos originários do Pantanal. Ninguém faz essa caminhada sozinho. Ela é construída por muitas mãos, e isso traz uma responsabilidade muito grande".

Gleycielli acredita que o resultado também demonstra o desejo da população por uma representação mais diversa nos espaços de decisão.

"Acredito que essa lembrança representa o desejo de uma política que acolha mais vozes. Não apenas dos povos originários, mas também das mulheres, dos professores, dos artistas, das pessoas da cultura, da educação e de quem vive a realidade de Mato Grosso do Sul. As pessoas querem se sentir representadas por quem conhece seus desafios e suas histórias".

Segundo ela, o levantamento fortalece ainda mais o compromisso de construir uma campanha baseada no diálogo e na participação coletiva.

"Esse resultado aumenta nossa responsabilidade, mas também reforça nossa vontade de construir uma campanha coletiva, diversa e comprometida em levar para os espaços de decisão as vozes de quem vive o nosso estado todos os dias".

Além da atuação artística, Gleycielli preside o Fórum Estadual de Cultura de Mato Grosso do Sul (FESC-MS), coordena iniciativas voltadas à literatura e à formação artística, integra o coletivo nacional Mulherio das Letras e atua em movimentos de fortalecimento das mulheres e dos povos originários. Ao longo da carreira, recebeu prêmios e homenagens por sua contribuição à cultura brasileira e à valorização da identidade indígena.

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